quarta-feira, 7 de novembro de 2012

As Mensagens de Berlim


O marco de um ano de viagem trouxe-me uma saudade intensa do Brasil e um desejo de voltar que pensei que jamais sentiria. Traçando o caminho (meio maluco como sempre) de volta, resolvi passar por Berlim, onde tudo começou e uma cidade que inspirou-me a viajar não apenas mundo afora mas também para dentro de mim.
A própria cidade exala essa mensagem de “perceba a vida, ela é mais do que o matar-se pelo pão nosso de cada dia”.
A vida em Berlim começa tarde, com tempo para longos cafés da manhã e um pouco de amor matinal. Ou talvez uma garrafa de cerveja se o dia pela frente lhe permitir.
Então a vida em si começa, geralmente sobre as bicicletas, que dominam a cidade plana e cheia de parques.
É possível evitar a rotina mas nem toda rotina é nociva. Descobri que eu a aprecio. Aprecio encontrar uma casa de chá para frequentar, um restaurante, um lugar para nadar.
O perigo da rotina é anestesiar-se. Parar de olhar o caminho que se faz todos os dias, pois mesmo o caminho de todos os dias está repleto de vida, de novidade.
Encontrei em Berlim uma rotina que me agradava muitíssimo e pelos meus caminhos encontrava na street art o alerta de manter-me desperto para o fato de que eu estou vivo nesse momento e nesse mundo extraordinários.













quarta-feira, 27 de junho de 2012

Ben


A gente nunca sabe de onde as lições vêm para nos atingir.
Ben "Não sabia Que Era Impossível Então Foi Lá e Fez", esse é seu nome. Devo dedicar-lhe um post inteiro.
Esse pirralho afetou-nos a todos no acampamento turista de Islamabad profundamente. Não se pode dizer seu nome impunemente. Seu nome traz lágrimas aos olhos.
A princípio imaginei que a semelhança entre Mr. Impossível e meu filho fosse fruto de uma saudade intensa que atinge-me coração, garganta, boca do estômago e olhos. Mas não, é uma semelhança inquestionável e inequívoca que não reside apenas na superfície mas que está na luz que deles emana. Além disso têm mesma idade e signo. E essa estrela na testa típica dos librianos. Eu os chamaria de sósias espirituais, Ian e Ben.
Enquanto todos no acampamento tínhamos assuntos a resolver nas embaixadas entre vistos e afins, sempre tomávamos contrariados o serviço de ônibus para entrar no Enclave, após tentativas frustradas de cruzar a pé pelo portão.
Ben ao contrário sempre o fazia, inclusive quando tinha apenas uma fotocópia de seu passaporte, no dia mais crítico em que a segurança estava dobrada.
Ontem voltou a Alemanha, logo antes de partir, me disse que esquecera alguns ovos na mochila. Não me surpreenderei se os ovos chegarem inteiros. Ben é assim, a concretização de eventos insólitos.
Imagino seus pais esperando um garoto voltando pra casa depois de 8 meses. Melhor que se preparem para a surpresa. A estrada muda a gente muito rápido as vezes. De repente chega lá esse cara fazendo malabares com o mundo, podem sofrer um ataque.
Sabe, é bom ver como sabedoria não é monopólio dos velhos. Ao menos essa lição de ignorar que haja coisas impossíveis é fruto principalmente das mentes mais jovens.
- Desaprenda - A memória de Ben me diz. - O mundo não é sólido como pensas.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Tabriz, Irã

Talvez a decisão mais louca de toda minha viagem tenha sido a de saltar no meio da noite em Tabriz, Irã.
O ônibus em que eu estava já refletia as dificuldades pelas quais eu passaria. Durante as trinta horas de viagem desde Istambul tive de comunicar-me através de mímicas e desenhos. Apenas dois passageiros falavam um inglês precário. A boa vontade não bastava como ponte entre eu e aquelas pessoas, a maioria bem simples.
Mas enfim ao passar por Tabriz, minha impaciência e impulsividade deram as mãos e saltaram do ônibus, me levando com elas. Quando recobrei a conciência, eram onze da noite, eu estava num país novo com alfabeto, língua e costumes indecifráveis para mim, tentando comunicar ao taxista, que me fitava como se olhasse para um alienígena, que eu precisava encontrar um albergue ou pensão barata.
Após deixar as malas no quarto onde me hospedei, saí à rua gelada caminhando sem direção. Podia escutar um som de multidão distante, certamente havia uma manifestação acontecendo em algum lugar.
Não se trata tanto de coragem mas a questão é mais precisamente que minha curiosidade emerge mais rápido que a série de eventos mentais que me trariam algum juízo e então me atiro às coisas.
Segui o som. Alguns quarteirões mais tarde encontrei uma multidão manisfestando-se com tambores enormes, estandartes e bastões. Em pequenos palanques móveis pessoas gritavam e cantavam.
Eu ignorava completamente o que se passava e pela minha experiência no ônibus não encontraria quem me contasse. Tratava-se, soube apenas na noite seguinte, das celebrações do Shakh Say, morte heróica de um santo xiita, Imam Hossein, neto de Maomé.
Tabriz é uma cidade conservadora, o que traz maior fervor às celebrações que duram todo um mês com distribuição de alimentos, manifestações artísticas, danças e cantos rituais.
Por outro lado, a opressão das leis islâmicas é mais evidente e mais claramente sentida. Nessas cidades a barreira linguística também é maior.
Mas mesmo que muitas vezes eles se considerem um povo à parte, fica nítida sua semelhança com os persas nas tapeçarias e em seu talento nato para as artes.

Apenas homens são permitidos na maioria das manifestações do Shakh Say.






O fervor do espetáculo chega algumas vezes a nos parecer agressivo e assustador.

Comida e chá distribuídos gratuitamente no bazar em Tabriz.

A arquitetura da mesquita e sua explicação. A abóbada e os minaretes representam um homem com os braços erguidos para o céu.

Chegamos ao topo do Castelo de Babak, próximo à cidade de Kalibar, apesar da neve até os joelhos e do vento cortante.



Dizy, carne de carneiro cozida com grão de bico e tomate.


Mesquita Azul.

A solidariedade à Gaza divide opiniões. Alguns concordam, outros julgam que o governo apóie os palestinos em detrimento de ajuda ao seu próprio país.


Comida distribuída nas ruas de Tabriz. A caridade é um traço forte do Islã.

Kandovan. As casas escavadas nas montanhas como em Capadócia.

Carrinho de batata doce.


Em Tabriz a maioria das mulheres usa o Shador.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Itinerary

For those boards now and to correct the lack of a chronological order in blog posts, here I trace the path taken by Jeguetrip.
My plans were to spend twenty days in Berlin visiting a friend and then fly directly to India where I would study Ayurvedic medicine for about six months. Then come back to Brazil. I ended my trip in China thirteen months later without going to India, which was left of being my main goal.
I fell in love with Berlin as soon as I arrived and just left there three months later when the winter came shortening the days and increasing the cold and the wet. Moreover, I ended a relationship kind of “Berlin is too small for both of us”.
Then I thought that Greece would be a better place than India to heal a broken heart. Could not be more wrong. The isolation of the Greek islands empty in winter and its beauty were a devastating shock treatment to me. But finally I was able to dive deep into a forced process of self-knowledge. And the cure came, brought for Time, this brother with whom I have this love and hate relationship because erases regardless friends and lovers from my mind.
Then I took a boat to Turkey to see some cities and to get my visa for India. Specifically I crossed from Rhodes to Marmaris. And went the same night to Istanbul. Istanbul is one city but two continents, Europe and Asia. Divided by the Bosphorus Strait, Istanbul has this fascinating double personality. But my money would not last long. Although cheaper than Europe, Turkey is still far more expensive than most of Asia. So quickly I asked the consulate for a Indian visa that would take 10 days to be ready. I took this meantime to go to Cappadocia from where I have seen pictures while I was still in Brazil.
So there was this Slovenian friend who convinced me that I should not miss the opportunity to see Iran as it was next door. He said the Iranians were an extremely hospitable people and Persian art and architecture worthy of note. The economics of moving over land was also crucial weight in my decision. The wait for the Iran visa made me spend the end of the year in Istanbul.
In early January then I left on a bus heading to Tehran. It would be almost two days of travel in a scenario predominantly covered by snow and ice. However I dropped off in Tabriz (northwest Iran) in the middle of the night. I was in Iran for more than two months. The country was entitled to all that Madison had told me. Unfortunately my visa wouldn’t allow me to stay for “Norooz”, the Persian New Year’s Eve celebrated on March 21 when they started the year 1388. In the time I was there I heard from several other backpackers about the natural beauty of Pakistan and again about a kind and hospitable people. An unique nature relying on some of the highest mountains in the world, a hospitality that was even a tourist attraction, a culture shaped by a maelstrom of historical events and prices “ridiculously” cheap.
I was in Pakistan for four months. The country had in me a strong impact. Despite all the cultural shocks with which was often difficult to handle, I left it with an early longing and a deep gratitude. Traveling has taught me to respect the seasons, so I delayed again my trip to India thinking that China would have a better climate for the summer.
I took the path of China following the KKH. Karakoram Highway is the highest international highway in the world. A road that winds through valleys between mountains and glacial rivers. I came this way to the province of Xinjiang in China, where most of the population belongs to a mixed race called uigur and is predominantly Muslim. Thus they suffer great prejudice of the Chinese government. Some recent protests had caused the government shut down international communications (telephone and Internet) across the entire province. Then I took my first flight since I started to travel over surface, crossing the whole China from west to east and going to stop right in the capital, Beijing. After falling seriously ill twice in a month, I decided it was time to allow my body a rest and decided to return to Brazil. Also I was saturated, it seemed there was no more space to absorb news. It was time to assimilate them.
Before Brazil I spent around 15 days in Berlin where I was hosted with immense affection by Chris. Until I see her I didn’t know exactly what would be the feeling that this meeting would arouse. One outcome full of meaning for a trip even more "profound" than long. Quartered alive today, my heart in Perpignan, my mind in Asia, my body surviving mechanically in a city which I identify myself less than most in which I have been.
But the redeployment also brings rich learning and acceptance of old and new friends softens the impact of return. The inevitable comparisons between these other worlds and mine enrich my perception of all events, yet intensely alive inside of me.

domingo, 22 de novembro de 2009

Salada Fotográfica

Considerando que as últimas postagens não têm fotos, uma miscelânea para alimentar as janelas da alma.

Yazd, Irã. Sobre os telhados das casas com o cuidado de não invadir a sagrada privacidade dos lares muçulmanos.

A chegada do outono em Berlim. Afim de enganar o inverno, as árvores se vestem de fogo.

Berlim e os dias curtos do inverno.

Kalash, Paquistão. Remanescentes de uma cultura em extinção pela pressão islâmica.

É preciso ter estômago forte no Paquistão. Tenho uma teoria que a pimenta desempenha um papel antisséptico na culinária asiática.

Esfahan, Irã.

Santorini, Grécia. Um alerta, a beleza amplifica as dores de cotovelo.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

À sombra de Suas Asas

Se o mundo me tenta demasiadamente para que eu me torne um santo, e isso pra mim é fato já comprovado, melhor perder logo a vergonha na cara. Afinal ser melhor ou pior é muitas vezes questão de ter uma auto-crítica mais ou menos apurada...ou uma hipocrisia mais arraigada, daquelas que engana a quem a ela recorre.
Yasser, um amigo palestino com extrema habilidade em arrancar-me lágrimas dos olhos, perguntou-me:
- Porque você não se compromete, tendo um coração tão bom e uma visão tão lúcida?
Enquanto eu me lembrava, chorando tanto de alegria quanto de dor, respondi-lhe:
- Eu não resisto a beleza do mundo. Minha carne é fraca e a beleza do mundo é tal que quando ela me chama eu vou. Não tenho sua firmeza de caráter.
Até hoje a simples memória de Yasser me emociona e me causa inveja. Mas seus 3 maços de cigarro por dia mostram o alto preço que ele paga por seu comprometimento.
Tenho visto anjos por toda minha vida. E não tendo sua força, à sombra de suas asas, abro as minhas para ser irresponsável e livre.

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Aeroporto de São Paulo

Na fila do desembarque de brasileiros do aeroporto de Guarulhos avistei uma chinesa. Logo a sua frente uma loura alta me lembrava as alemãs de Berlim. Imediatamente atrás das duas um negro e em seguida um sujeito com traços árabes.
13 meses de viagem e uma meia-volta ao mundo para encontrá-los dentro de casa.
Aquela interseção de mundo diante dos meus olhos, encheu-os de água.